Português venceu a concorrência de Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta, para levar o prêmio
O Mundo Bola está promovendo em seu Twitter, algumas enquetes que perguntam como foi o ano do Flamengo na visão do torcedor. É a primeira edição do ”Prêmio Mundo Bola”.
Na categoria ”Contratação do ano”, as opções eram: Gabigol (terminou a temporada com 43 gols e sendo decisivo no título da Libertadores), Bruno Henrique (vice-artilheiro em 2019 e chamado o “Rei dos clássicos”), Jorge Jesus (técnico que substituiu Abel e mudou o Flamengo de patamar no segundo semestre) e Arrascaeta (meia uruguaio que terminou o ano como líder em assistências).
A votação durou 10 horas, e Jesus venceu com uma certa facilidade. O português que foi eleito o técnico da temporada pela CBF e a ESPN no troféu “Bola de Prata”, venceu a enquete com 60% dos votos, seguido por Bruno Henrique com 33%.
Ver seu time em uma final de Mundial de Clubes já não é pouca coisa. O fazer 38 após a primeira e única participação, então, é mais histórico ainda. O Mundo Bola conversou com quatro fanáticos que enfrentaram suas sagas para estarem em Doha e pedirem o mundo de novo.
Localidades, classes sociais e raças distintas mas uma grande característica em comum: o amor pelo Flamengo. Lucas Dantas, Lucas Pimenta, Marcio Castello e Pablo Galdencio levaram a sério o mantra “onde estiver estarei” e presenciaram esse momento histórico, in loco…
A ida
Cada um com sua narrativa. Uma não menos importante que a outra. Marcio Castello, por exemplo, tem um “contrato pré-nupcial” com o Flamengo. A cláusula mais importante? “Ir a todos os jogos do Flamengo que eu considero importantes”. Empresário, ele deixou o gerente cuidando dos negócios para viajar alguns bons quilômetros para acompanhar o Mengão, algo que já está intrínseco na sua rotina: “Esse ano, na Libertadores, só não fui ao jogo no Uruguai. Fui a todos os outros! Não tinha como eu ficar de fora do Mundial”.
Do acordo pré-nupcial do Marcio para um dos amores que une Lucas Dantas e sua esposa. Ele, “ainda sub-20”, conheceu sua atual companheira nos idos de 1996 e, desde então, uma promessa persistiu. Casar? Ter filhos? Viagem num cruzeiro? Talvez… Mas, nesse caso, fazer o possível para ir ver o clube do coração em uma final de Mundial: “A gente falava que venderia o carro, órgão, o que fosse… Então fizemos um pacto: quando o Flamengo chegasse (no Mundial), nós iríamos de algum jeito, sejam os dois ou um de nós”. Dantas foi… Sem a esposa, que ficou no Brasil cumprindo “uma missão importante.
Agora pensa aí se, às vésperas de um dos jogos mais importantes da história de um clube e de um ser humano, você estar enlouquecido para ir ao estádio mas não ter como comprar o ingresso? Com Pablo Galdencio foi assim… Anos e anos de dedicação ao Flamengo e uma dificuldade imensa para viver um sonho em terras catares. O esforço foi tanto que um amigo ou, nas palavras dele, “um anjo do céu” o presenteou com o ingresso!! Pensa que acabou a história?
Pablo não tinha passaporte. Como fazer uma viagem internacional sem isso? O cara correu contra o tempo mas enfrentou outro empecilho: não tinha o certificado de reservista, documento fundamental para um homem conseguir o documento. Até a quarta da semana da final (17) ele ficou em cima da Junta Militar e Polícia Federal até conseguir um certificado provisório e, posteriormente, tirar um passaporte emergencial. Um trâmite que durou insanas 48 horas!
Quem não deveria ter enfrentado muito problema é Lucas Pimenta, que mora em Dubai, um perto que se tornou longe por conta de embargos que o Qatar impôs a alguns países do Oriente Médio, inclusive para os Emirados Árabes Unidos, ou seja, não havia como ele fazer um voo direto, sem grandes problemas ou muita demora. Lucas teve que fazer conexão no Kuwait e, de lá, voou para Doha: “Mal comparando foi como fazer um trajeto Rio-São Paulo com uma escala em Fortaleza”. Pra completar as complicações impostas pelo embargo, o celular tinha “um belo peso de papel”, já que o chip não funcionava. Lucas precisou comprar um chip novo para encontrar os amigos na sede do Mundial.
A impossibilidade de você ir de Dubai para Doha foi tema, também, de história tristes que Marcio ouviu durante o voo Vitória-São Paulo-Doha: “Ouvi histórias tristes de pessoas que não entraram (no avião) por problema com validade no passaporte e de outras que compraram passagem pra Dubai sem saber que a fronteira está fechada”.
Casos assim aumentam o previlégio de quem pôde acompanhar um momento histórico in loco. Ser Flamengo é sofrer, mas também é rir, pular e chorar de qualquer canto do mundo. Para aqueles que ficaram no Brasil, os deuses do futebol certamente preparam momentos especiais…
A Nação em Doha
Foto: Marcio Castello/Arquivo Pessoal
“A temperatura está boa, comida gostosa… Foda é que a bebida só é vendida nos hotéis. E é muito cara!”, diz Marcio, já em Doha. Segundo ele, os anfitriões pareciam estar gostando das festas nas ruas.
Pablo, por sua vez, disse que foi um “baque” logo de início, pois as pessoas são muito sérias, ao contrário do Rio de Janeiro, onde mora. Do povo local, sentiu indiferença nas ruas, mas nos pontos turísticos todo mundo foi muito bem tratado. Além disso, se disse impressionado com a organização e riqueza da cidade. Sobre a comida: “Não tive coragem… comida muito forte, muita pimenta. Tô comendo lanche e o famoso ‘podrão’ por aqui”.
Lucas Pimenta, que vive uma cultura semelhante, ressalta a paixão que os árabes têm pelo futebol, apesar de salientar suas distinções.
“Árabe é um conceito muito amplo. Você tem o árabe do Marrocos, que tem uma relação com o futebol muito raiz, onde os caras têm os próprios times e apoiam e vivem igual a gente vive no Brasil. Tem os egípcios, que é uma experiência diferente que, apesar de terem os times locais, esses não têm performance muito boa, então eles acompanham muito o futebol europeu… No geral curtem muito os jogadores famosos e são fanáticos por futebol”, conta e conclui: “jogam muito mal inclusive”.
Em relação a Doha, ele compactuou tanto com Marcio quanto com seu xará de sobrenome Dantas: “Pelo que vi até agora, todo mundo parece muito feliz de estar sediando o evento. Peguei um metrô pra ir assistir a semifinal (Flamengo x Al-Hilal) e a galera tava ‘aloprando’ e os locais estavam sorrindo e filmando. Os flamenguistas são muito simpáticos, usando roupas típicas… Um clima bem feliz”.
Estrutura e organização
Doha será uma das cidades-sede da Copa do Mundo de 2022 e eventos como o Mundial de Clubes servem como teste. A cidade, segundo Lucas Pimenta, correspondeu:
“O acesso ao estádio Khalifa é muito bom. Próximo ao metrô, assim como o Maracanã. Tem uma área de isolamento em volta do estádio, que te permite acessar as categorias e os portões específicos do seu ingresso. Não vi nada de errado na logística. Até mesmo os bares estavam com filas razoáveis e o atendimento era bom”, afirmou.
Flamengo x Al-Hilal
Antes da estreia do rubro-negro na competição após 38 anos, houve concentração da embaixada Fla-Qatar. Marcio considerou a experiência algo sensacional: “Havia uns 2 mil rubro-negros no bar, fora a galera que não conseguiu entrar”, conta ele, que logo após a festa foi de metrô para o estádio.
(Foto: Marcio Castello)
Dentro de campo o Flamengo começou muito mal e terminou o primeiro tempo atrás no marcador, fora as diversas chances que cedeu. Parecia muito com o jogo contra o River Plate, na final da Libertadores. Na etapa final, contudo, tudo mudou e Arrascaeta, Bruno Henrique e Al-Boleahi (contra) viraram o placar para o Mais Querido. A reviravolta, no entanto, não teria ocorrido não fosse a união da torcida no intervalo.
Os torcedores ficaram distantes uns dos outros e, ao fim dos 45 minutos iniciais, a Nação quebrou o protocolo e se uniu na arquibancada.
“Eu fui com três amigos e cada um ficou em categorias diferentes. Eu fiquei onde a bateria estava, logo atrás do gol, e a gente percebeu que a torcida precisava apoiar mais. Só que tava difícil, pois a galera tava muito espalhada no estádio”, conta Lucas Pimenta.
(Foto: Lucas Pimenta)
“Nós ficamos chamando pra todos virem e o pessoal foi chegando”, relatou Pablo. Uma dessas pessoas foi o Marcio, que contou como o clima mudou no segundo tempo:
“No primeiro tempo assisti no meio do estádio. Aí no segundo tempo, vi uma galera indo em direção à torcida atrás do gol e fui também. Inicialmente o clima parecia de amistoso, depois foi outro clima… um clima de decisão”.
A união foi fundamental para o time alcançar a virada e a classificação para a tão sonhada final. “A galera do barulho puxou o time no segundo tempo, vibrou bastante, mas sentiu o golpe na primeira etapa. Depois do empate cedo, aí ninguém segurou”, contou Lucas Dantas.
Derrota para o Liverpool, orgulho e gostinho de quero mais
Perguntei se valeu a pena enfrentar toda a saga e voltar sem o tão sonhado troféu. Termino essa reportagem somente com as falas deles e com a certeza de que, em breve, teremos uma nova chace de ter o mundo de novo.
Marcio Castello:
“Uma das coisas que mais gosto é ver o Flamengo jogar fora do país. A torcida do Flamengo deu um show lá. E não faltou entrega do time, não faltou raça. Não é isso que a gente sempre pede?
A frustração é que se a gente tivesse mais um pouquinho de sorte, dava pra ter ganhado. Mas sem dúvida alguma, perdemos pro melhor time do mundo. Sempre reclamei que o esporte praticado na Europa era outro. Hoje nós estamos jogando o esporte que é praticado lá”.
Lucas Dantas:
(Foto: Lucas Dantas)
“Claro que valeu. Tanto valeu que repetirei. Me despedi do Flamengo de 2019 com um grande jogo, uma partida que se tornou histórica, mesmo com a derrota. Foi o final de uma campanha onde time ganhou a Flórida, o Rio, o Brasil e a América. Faltou o mundo, mas é algo que jamais será apagado e dificilmente igualado ou superado.”
“Quando acabou o jogo eu estava triste, sim, mas logo passou. Fiquei orgulhoso do time pelo ano, da torcida pela paixão demonstrada, de mim mesmo, por ter realizado um sonho que tinha há muito tempo e também por ter visto de perto excepcionais jogadores do time inglês, como amante do futebol que sou. Em 2020 o Flamengo irá repetir e eu provavelmente também. Além do Mundial de 2021, que já entrou na fila.”
Lucas Pimenta
“Valeu a pena, claro! O jogo foi bom e nos sentimos no próprio Maracanã. Faltou o título mas acredito que todo rubro negro de lá saiu de cabeça erguida. Ano que vem tenho a certeza de que estaremos lá e dessa vez o título vai vir!”.
Bom rendimento do volante surpreendeu a torcida, que o vaiava constantemente antes da chegada de Jorge Jesus
O Mundo Bola está promovendo em seu Twitter, algumas enquetes que perguntam como foi o ano do Flamengo na visão do torcedor. É a primeira edição do ”Prêmio Mundo Bola”.
Na categoria ”Surpresa do ano”, as opções eram: Willian Arão (criticado fortemente pela torcida antes da chegada de Jorge Jesus), Pablo Marí (zagueiro espanhol que jogava a segunda divisão da La Liga), Gerson (após deixar o Flu em 2015, teve uma passagem sem brilho pelo futebol europeu) e Jorge Jesus (técnico português que substituiu Abel Braga, mas na época era desconhecido da grande massa brasileira).
A votação durou 10 horas, mas teve um grande expoente que disparou na frente: Willian Arão. O volante voltou a jogar o bom futebol de 2016 e foi um dos destaques do clube na temporada. Arão venceu a enquete com 50,1% dos votos, seguido por Jesus com 22,9%.
— Mundo Bola – Notícias do Flamengo (@Mundo Bola_CRF) December 27, 2019
Marí, que acertou a zaga rubro-negra juntamente com Rodrigo Caio, após a saída de Léo Duarte para o Milan, ficou em terceiro com 17% dos votos, enquanto Gerson teve 10,4%.
Veja um gol de Arão no Brasileirão: a surpresa da temporada rubro-negra
Partida que marcou a semifinal da Libertadores, ficou na frente da própria decisão e de jogos importantes do Brasileiro
O Mundo Bola está promovendo em seu Twitter, algumas enquetes que perguntam como foi o ano do Flamengo na visão do torcedor. É a primeira edição do ”Prêmio Mundo Bola”.
Na categoria ”Jogo do ano”, as opções de votos eram: Flamengo 5 x 0 Grêmio (semifinal da Libertadores), Flamengo 2 x 1 River Plate (final da Libertadores), Flamengo 3 x 0 Palmeiras (Brasileirão) e Vasco 1 x 4 Flamengo (Brasileirão).
A votação durou 10 horas, e foi muito disputada até os momentos finais. Com 48,3% dos votos, a goleada por 5 a 0 contra o Grêmio foi eleito o melhor jogo do rubro-negro na temporada. O segundo jogo mais bem votado foi justamente a final contra o River Plate, com 47,1%.
— Mundo Bola – Notícias do Flamengo (@Mundo Bola_CRF) December 27, 2019
As goleadas contra os rivais Palmeiras e Vasco, pelo Campeonato Brasileiro, teve pouco apelo na enquete. O 3 a 0 contra os paulistas no Maracanã recebeu 3,3% dos votos, enquanto o 4 a 1 contra o cruz-maltino teve 1,4%.
Relembre os gols da vitória por 5 a 0 contra o Grêmio, eleito o jogo do ano
O ano de 2019 foi agitado para o Futebol Feminino do Flamengo. O clube manteve sua parceria com a Marinha do Brasil no time adulto, foi campeão do Campeonato Carioca e foi eliminado nas semifinais do Campeonato Brasileiro, assim como em 2018. Foi o sexto título conquistado em cinco anos de parceria. O Rubro-Negro não participou da Libertadores (entenda aqui) e, com a ausência de algumas atletas no período dos Jogos Mundiais Militares, contratou por conta própria, seis atletas.
Nesta temporada também, o clube assumiu a responsabilidade nas categorias de base, com as “peneiras” para formação da equipe sub-16/sub-18. Neste primeiro ano, não houveram títulos: a equipe foi eliminada na semifinal do Carioca Sub-18, na segunda fase do Brasileiro Sub-18 e na primeira fase do Brasileiro Sub-16. Confira agora algumas das estatísticas das “Meninas da Gávea” em 2019:
Equipe adulta – profissional
O Flamengo/Marinha em 2019. Créditos: Adriano Skrzypa
30 jogos – 21 vitórias – 3 empates – 6 derrotas – 185 gols marcados – 21 gols sofridos – 19 jogos sem sofrer gol
Em 2019, a atacante Flávia Giovanna foi a líder da equipe nos quesitos jogos disputados (26) e gols marcados (30). A também atacante Raiza também destacou-se, com 29 gols em 25 partidas. No Campeonato Brasileiro, a camisa 9 Larissa foi a artilheira da equipe, com 11 gols, enquanto no Carioca, Samhia fez 25. No total, foram 185 gols marcados em 2019 – 135 no Campeonato Carioca. CONFIRA OS CINCO GOLS MAIS BELOS!
Artilharia – Flamengo/Marinha em 2019
35 cartões amarelos e 3 vermelhos foram distribuídos às atletas do Flamengo no decorrer da temporada. No Brasileirão: Andressa Pereira (4 CA e 1 CV), Fernanda Palermo, Bia Menezes e Day, (3 cada), Gaby e Rafa Barros (2 cada), Carol Matos, Ana Carla e Sâmia Pryscila (1 cada). No Carioca: Samhia, Raiza, Aryane, Bruna Rosa, Renata Diniz, Camila, Mila Santos, Andressinha, Danúbia, Yasmin Santos, Bia Menezes, Flávia, Karen, Fernanda Palermo e Andressa Pereira foram amareladas (1 vez); Aryane e Day foram expulsas.
Categorias de Base – sub-16 e sub-18
O Flamengo nas categorias de base do Futebol Feminino em 2019. Créditos: Adriano Skrzypa
17 jogos – 10 vitórias – 3 empates – 4 derrotas – 59 gols marcados – 25 gols sofridos – 9 jogos sem sofrer gol
A lateral-direita Kemilly foi a única atleta Rubro-Negra a participar de todas as partidas das competições oficiais para as categorias de base feminina em 2019: 17 jogos. Logo atrás, Ana Clara e Maria Peck, com 16 partidas disputadas. Peck, aliás, foi a artilheira da equipe em 2019, com 17 gols (e ainda marcou gol pelo time adulto, no Carioca).
A curiosidade fica por Trauco e Pará, que deixaram o clube no primeiro semestre e constam no Top 10
Na temporada perfeita do Flamengo, a equipe comandada pelo técnico português Jorge Jesus (Abel Braga no primeiro semestre), fez 153 gols. Para balançar as redes adversárias todas estas vezes, foi preciso pelo menos 111 assistências.
Arrascaeta terminou o ano como líder nesta estatística, com 19 passes para gols, seguido por Everton Ribeiro e Bruno Henrique, ambos com 14.
Atletas como Henrique Dourado, Uribe e Jean Lucas (todos que já deixaram o clube), marcaram neste ano
O Flamengo encerrou sua temporada marcando 153 gols e sendo campeão da Flórida Cup, Carioca, Brasileiro e Libertadores.
O melhor ano da década do rubro-negro teve Gabigol como maior artilheiro, marcando 43 gols, e Bruno Henrique em segundo, balançando as redes adversárias 35 vezes.
Mesmo derrotado na prorrogação, Fla bateu números de Corinthians, São Paulo e Inter, que saíram com o título
O Flamengo esteve perto de ser Bicampeão Mundial nesta temporada. O rubro-negro disputou em Doha, no Catar, a final contra o Liverpool tentando repetir o feito de 1981, mas sofreu um gol na prorrogação e deixou o título escapar, após uma atuação bastante digna.
Na era dos anos 2000, o Fla de Jorge Jesus por exemplo, foi a equipe que mais finalizou e teve posse de bola contra um europeu em final de Mundial de Clubes.
A partida terminou 0 a 0, e no tempo extra, Firmino marcou em um contra ataque para os ingleses, dando o título inédito para os Reeds.
Tenho certeza de que essa escolha eu não mudo mais, porque se houver algo maior eu morro antes do apito final
Eu faço listas. Do Flamengo, o tempo todo, como o Rob Fleming de High Fidelity fazia de músicas. Coisas bem específicas e absurdas, como os 5 gols de cabeça mais fodas no Maracanã depois dos 30 do 2º tempo, ou os 5 gols mais bonitos marcados por zagueiros sem ser de cabeça.
Algumas são mais loucas do que essas duas e prefiro nem dizer. Nem todas são top 5, claro. Mas todas passam por uma atualização mental ou revisão histórica e me ajudam a enfrentar esperas em filas, noites de insônia e desencontros diversos. Algumas eu não mudo há muito tempo.
Por exemplo, as 5 melhores narrações de gols no rádio: 1. Pet no tri de 2001, Penido; 2. Nunes em 80, Doalcei; 3. Adílio contra o Vasco em 81, Waldir Amaral; 4. Bebeto contra o Inter em 87, Garotinho; e Andrade nos 6×0 em 81, Curi. Não mexo desde 2001.
Essa lista tem dois critérios: não repetir narrador e a transmissão não pode ter sido off tube, ou seja, tem que ser in loco e não em estúdio. Arquivei mais de mil gols do CRF em narrações de rádio, sendo o mais antigo o de Valido em 1944 e preciosidades com o 1º de Zico em 1971.
Uma das listas acaba de sofrer uma alteração. O jogo mais marcante do Flamengo em cada dia da semana, e na minha lista só vale jogos que eu vivi, no estádio, na TV ou no rádio, de corpo e/ou alma presentes. E eu consigo reviver a emoção de cada um deles.
Domingo: Flamengo 3 x 0 Liverpool, 81. É o dia mais concorrido, mas não tem como. A espera pelo jogo, o horário da meia-noite que carregava consigo algo de transformação, e foi a transformação de milhões em campeões do mundo. Dormi de madrugada, quando acabaram as transmissões.
Lembro que quando acordei, criança de 8 anos de idade, o primeiro pensamento foi MEU DEUS, SOU CAMPEÃO DO MUNDO. A família reunida para ver o replay do jogo, que coisa mágica. Passei o domingo todo ouvindo rádio, gravando os gols, chorando de alegria. Arigatô, Flamengo.
Segunda-feira: a negra da final da Liberta de 81. Depois de perder na 6ª para o time feito por Pinochet para ser o orgulho nacional do Chile chumbado, passamos o sábado e o domingo rezando para que o sangue de Adílio e Lico não houvesse sido derramado em vão. Um Flamengo justiceiro.
Terça-feira: Wilstermann 1 x 2 Flamengo, 81. O estádio lotado em Cochabamba vibrou quando o general que presidia a Bolívia desfilou pelo gramado antes do jogo de microfone em punho aos gritos de “Wilstermann, es Bolivia”. Praça de guerra. E vencemos.
Quarta-feira: Atlético 2 x 3 Flamengo. Vitória em noite heroica de Zico, que não dormiu na véspera fazendo tratamento no joelho baleado. Um Mineirão abarrotado em chamas, uma arbitragem descontrolada do doidivanas Dulcídio Wanderley Boschilia, um clima de fim de mundo contra nós.
Os capangas dos Khalil agrediram radialistas do Rio, o staff do Flamengo e chutavam a porta do vestiário durante a preleção. Pedras e fogos atingiam a nossa torcida. O empate era nosso. Vencíamos por 2×0, o primeiro o gol mais foda do Zico de cabeça de toda a carreira.
Mas perdemos muitos gols, Dulcídio inverteu faltas a rodo, o Atlético empatou, e quando parecia que ia virar, Renato Gaúcho arrancou da intermediária como se libertasse suas pernas de correntes seculares e não entrou com a bola porque tinha pressa em xingar o Telê. Noite eterna.
Quinta-feira: Fla 4 x 3 Palmeiras, 1º jogo da final da Mercosul de 99. Todos, menos nós, achavam o Porco HIPER favorito. E eles lideraram no Maracanã em 2×1 e 3×2, mas buscamos numa noite épica dos anti-heróis Caio, Reinaldo e dos Leandros Machado e Ávila.
Sexta-feira: poderia ser o primeiro jogo da final da Liberta de 81, mas na verdade aquela noite terminou no anticlímax com o gol chileno. Meu jogo de 6ª favorito é num palco sagrado europeu, o Giuseppe Meazza. Vencemos a Internazionale de virada na estreia do Mundialito de 1983.
Pouca gente dá valor àquela partida, mas foi a primeira vitória desde que a venda de Zico havia sido oficializada. Adílio com a 10, Junior no meio, Leandro onipresente e ao final os italianos aplaudiram em pé. Depois de dias difíceis, o alívio da sensação de que estávamos vivos.
Sábado: Estava na lista o último jogo oficial de Zico, o Fla 5 x 0 Flu de 1989. Mas agora, e ouso dizer que pelos séculos-e-séculos-amém, o jogo definitivo dos sábados é outro, e suspeito que Vinicius de Moraes reescreveria o monumental “O Dia da Criação” se vivo estivesse.
O jogo maior de todos os sábados é Flamengo 2 x 1 River Plate, ao pé do morro em Lima, e tenho certeza de que essa escolha eu não mudo mais, porque se houver algo maior eu morro antes do apito final e como um bom morto eu só vou descansar e não vou mudar lista nenhuma, RIP.
Sem dúvidas somos o melhor time sul-americano que enfrentou um europeu nas últimas décadas
Faltou pouco para que o ano mágico de 81 se repetisse, e eram muitas as coincidências. Saber que depois de 38 anos o Flamengo conquistou uma Libertadores no mesmo dia e mês do primeiro título. Que na final do Mundial enfrentaria o mesmo Liverpool colocado na roda por Zico e companhia. E que usaria o lendário uniforme branco na final contra os ingleses.
Entre tantas outras semelhanças entre as temporadas 19 e 81, aumentava-se a confiança no título mundial; a certeza de que o destino já estava todo traçado. Mas não foi como esperávamos.
Difícil de entender como todo este enredo não culminou no esperado fim. A bola na trave de Firmino no segundo tempo da final parecia ser sorte de campeão, o pênalti apontado e depois desmarcado mostrava que, mesmo sofrido, o título seria nosso, estava claro!
Não deu. A superioridade europeia de um elenco três vezes mais caro, a maneira ajustada de jogar de um time com quatro anos de convivência e o desgaste dos nossos jogadores após temporada longa e competitiva adiaram o sonho.
Onde estavam os Deuses do Futebol que deixaram isso acontecer?
Fica o gosto amargo, mas também fica a certeza de que estamos no caminho certo. Embora o que estava desenhado não tenha se tornado real, essa equipe entra história com espaço na mesma prateleira da magnífica geração dos anos 80.
A verdade é que todos os jogadores, comissão técnica e diretoria estão de parabéns pelo trabalho realizado durante todo o ano. A passagem pelo Qatar deixou claro o patamar em que estamos. Sem dúvidas somos o melhor time sul-americano que enfrentou um europeu nas últimas décadas. O jogo mostrou isso.
O que nos resta é comemorar os feitos de 2019 e sonhar com um 2020 ainda melhor. Com grandes conquistas e um futebol bem jogado, em um nível equiparado a qualquer time do mundo. Os Deuses do Futebol entraram de férias antes do tempo.