Alguém sabe dizer sem olhar no calendário quando é a abertura oficial da temporada de cornetar treinador? Existe mesmo nas regras da diplomacia futeboleira esse negócio de uma entente entre a Nação e o distribuidor de camisa da vez? Um período de paz negociada em que não se pode cornetar o cara porque é pré-temporada, os jogadores precisam ser testados ou a competição não tem relevância? Não que eu esteja ansioso pra criticar o Abel (por quem já nutria antipatia anterior à sua contratação), só que tenho mais o que fazer do que ficar falando mal do cara por causa de uma coisa besta como o Carioca.

Mas,
é forçoso dizer, nessa passagem pela Gávea, e a despeito do investimento
parrudo em contratações, o único marco inquestionável que Abel atingiu em 5
jogos foi colocar em campo um time pior do que o da ultima temporada. O que
também não é nenhum crime inafiançável posto que o time de 18 era um 6,5 com
alguns fugazes lampejos de 7 na época de Vinicius Jr e o time atual ainda está
lutando pra não ficar abaixo de 5. Nem é preciso citar as discutíveis condições
de salubridade e os escassos incentivos oferecidos aos campeões dessa bobagem
que se tornou a centenária competição praiana. Ou seja, o fim do mundo pode
estar próximo, mas ainda não chegou.
O
que fode tudo é que a coisa toda do Campeonato Carioca é regida por uma lógica
amalucada. Gatos-mestres das mais variadas pelagens costumam afirmar que a
competição é ideal para testar jogadores e táticas visando competições de maior
prestígio. Mas são os mesmos caras que consideram sacrilégio demitir treinador
por causa ou durante o carioqueta, pois os pobres ainda não teriam sido
devidamente testados.
O risco que se corre adotando essa linha filosófica é que o Flamengo, mal e porcamente, aos trancos e barrancos, na aba da força gravitacional de sua camisa, acaba ganhando mais uma merda de um Carioca. E o treinador (qualquer treinador, o Abel não é relevante no caso) que se mostrou sobejamente incapaz de fazer o time desenvolver algum esboço de bom futebol mesmo enfrentando equipes com um handicap muito mais alto chega na competição mais cascuda com a aura de vencedor e com a sua licença pra cometer burrices renovada, surfando a rebarba daquela entente marota do início do carioqueta.
Ora,
o torcedor quando vê seu time jogando uma bolinha mais ou menos, ganhando dos
fregueses paroquiais, não quer guerra com ninguém. Mas se o treinador não foi
capaz de armar uma equipe razoável disputando um campeonato notoriamente
café-com-leite, são imensas as chances de que igualmente não o seja na hora que
em que seus jogadores necessitarem dos préstimos dos escudos dos batalhões de
choque da URSAL quando forem bater corner a 3 mil metros de altitude.
Carioca
e Libertadores, ou Brasileiro ou Copa do Brasil, são antípodas, onde um está o
outro não pode estar. Não guardam nenhuma relação de parentesco ou amizade, são
praticamente estranhos. Para alguns são inclusive inimigos. Porque,
excetuando-se o inparametrizável Flamengo de 81, não há registro histórico de
um time que tenha se saído bem na Libertadores em função de uma evolução
técnica ou tática alcançada na disputa do Carioca. Contudo, jogar mal o Carioca
e acreditar em fazer uma grande Libertadores é o que mais nos acontece, no
definitivo triunfo da esperança sobre a experiência.
Da
mesma maneira que o Flamengo de 81 não pode ser parâmetro tampouco o carioqueta
serve pra fazer nenhuma projeção sobre o futuro na Libertadores ou no
Brasileiro. O Flamengo pode até enjoar de ganhar do Bacaxá na Taça Guanabara,
pode fazer 200 gols por jogo que não significa nada. No Carioca tanto o
torcedor mais inocente quanto o gato-mestre mais inescrupuloso buscam uma
epifania. Antever num dos campinhos da nossa roça um futebol de insinuância,
força e objetividade capaz de encantar a América e quebrar a crista dos
argentinos safados.
Sou
um torcedor fiel aos meus princípios e um comentarista compromissado com a
coerência, e não teria o menor pudor em atravessar o gramado carregando 10
arrobas de Abel nos ombros se ele for o cara capaz de fazer o Flamengo jogar
esse futebol de magia e opressão continental que só existe na cabeça de alguns
alucinados. Só que acho muito difícil que isto aconteça ainda nessa encarnação.
Mais prudente e querendo fazer negócio, dou bom desconto em minhas cobranças.
Se o Abel com esse elenco nas mãos não transformar o Flamengo no garoto rico da
pelada do condomínio já me dou por parcialmente satisfeito.
Mengão Sempre
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